A
Folha publica nesta segunda uma entrevista concedida pelo ex-presidente
Fernando Henrique Cardoso a Fernando Rodrigues.
Folha/UOL
– A crise econômico-financeira internacional colocou na defensiva as
ideias liberais. Essa onda muda a abordagem de partidos como o PSDB?
Fernando Henrique Cardoso - Os que estão no governo passaram a ter uma espécie de perdão para utilizar recursos públicos para reativar a economia.
O PSDB nunca foi um partido que tivesse
muito amor pelo mercado. Como todos os partidos brasileiros, as pessoas
gostam mesmo é de governo, é de Estado. Isso desde Portugal, da
Península Ibérica. O grande ator, querido, é o governo.
Estamos de volta a “Os Donos do Poder”, de
Raymundo Faoro, e a “Raízes do Brasil”, de Sérgio Buarque de Holanda. O
“amor” dos brasileiros pelo estado teria sido herdado. É inegável, mas
incompleto. Acho que FHC deveria ter sido mais explícito, deixando claro
que os tucanos nunca foram (e aqui digo eu: infelizmente!) liberais.
Nem ele próprio. A privatização de algumas estatais nunca significou
opção pelo neoliberalismo. O ex-presidente perdeu a chance de apontar a
grande fraude intelectual petista. Cumpria destacar ainda as
privatizações recentemente feitas por Dilma, não é? São diferentes
daquelas do passado num única aspecto: o improviso.
(…)
O PSDB nasceu de centro-esquerda.
Em eleições recentes, abordou temas morais e religiosos. Deslocou-se
para a centro-direita. Por quê?
Por engano eleitoral. Esses temas são delicados. Acho que você
tem que manter a convicção. Você pode ganhar, pode perder. Em termos de
comportamento e de valores morais, o PSDB tem que se manter
progressista. Quando não se mantém, não tem o meu apoio. Eu não vou
nessa direção.
Há vários equívocos aí, a começar da
pergunta. Se eu pedir a Fernando Rodrigues que aponte uma só peça de
propaganda eleitoral do PSDB que toque nos tais problemas morais e
religiosos, ele não conseguirá apontar. Não existe. Em 2010 e neste
2012, quem primeiro se ocupou dessas questões, e de maneira preventiva,
foi o PT. Isso é apenas um fato. A tática é quase infantil, mas dá
certo, como se nota.
FHC endossa a inverdade e segue adiante com esta formulação que dá pano pra manga: “Em termos de comportamento e de valores morais, o PSDB tem que se manter progressista”. É mesmo? E em que o partido poderia ser, sei lá, “conservador”? Em economia?
O ex-presidente não se dá conta de que
tenta a quadratura do círculo – ele e os tucanos todos. Foi Dilma quem
primeiro levou a questão do aborto para a disputa em 2010. Foi Fernando
Haddad quem primeiro levou a questão do kit gay para a eleição neste
2012. O ERRO DO PSDB, NOS DOIS CASOS, FOI TER FUGIDO DO DEBATE.
Questões chamadas nesta entrevista de
“morais e religiosas” são tema de disputa eleitoral em todo o mundo
democrático – ou será que minto, presidente? E jamais ocorreria a alguém
tentar deslegitimá-las. Uma das perdições dos tucanos está, justamente,
em tentar fazer um campeonato de “progressismo” com o PT.
O sr. tem dito que o PSDB tem que se aproximar mais “do povo”. Como fará isso?
Os partidos, por causa de uma mudança tão rápida no Brasil,
ainda continuam com uma visão de sociedade anterior à atual. A atual é
essa do UOL, da pessoa que fica aí navegando o tempo todo, que tem
informação fragmentada. Minha tese é a seguinte: é preciso ouvir. Não é
pregar. É ouvir. É reconectar com o que está acontecendo com o país.
Não entendi nada! Na entrevista, o
ex-presidente cita até a novela Avenida Brasil, a tal nova classe média,
o Elio Gaspari, o andar de baixo, o andar de cima… Fiquei com a
impressão de que o ex-presidente está tateando a escuridão.
(…)
Como é a capacidade gerencial do atual governo?
Alguém me perguntou a respeito de o PIB ter crescido pouco:
‘Isso quer dizer que a presidente Dilma é má administradora?’. Não. O
PIB cresceu pouco por mil razões. O erro, que eu acho que houve, é que o
governo se colou ao PIB. Não precisava. Não acho que se deva colar na
presidente Dilma [a queda do PIB]. Ela é que pode se colar nisso. Aí
fica mal para ela.
Como se cantaria em Avenida Brasil, “Oi,
oi, oi…” Se vocês notarem bem, FHC fala como conselheiro de Dilma, não
como representante da oposição. Nem mesmo admite que ela é uma má
administradora. Bem, se não é, então tudo bem! Trocar pra quê? Na
sequência, o entrevistador indaga se a crítica à incompetência gerencial
do governo é um bom discurso para a oposição. FHC responde: “A
governança está falha. Mas campanha é outra coisa. Isso [falar da
governança] pega quem? Por enquanto, não pega o povo.”
(…)
O
sr. conviveu com alguns dos réus que foram condenados no mensalão. José
Genoino, José Dirceu. O que o sr. achou dessas condenações?
Eles não foram condenados pelo que eles são. Mas pelo que eles
fizeram. Uma coisa é você ser um bom homem. De repente, eu fico com
raiva, dei um tiro e matei alguém. O que eu vou fazer? Vou para a
cadeia.
Nunca vi nada do Genoino. É uma pessoa
bastante razoável. O José Dirceu é um quadro. Eu respeito as pessoas que
têm qualidade de quadro. Acho um episódio triste. Porque essa gente
ajudou muito o Brasil no passado.
Taí! Dirceu estava esculhambando FHC ontem
em seu site, mandando, na prática, o tucano ficar calado. Notem: nessa
resposta e naquela sobre costumes e religião, quem fala é sociólogo que
já foi de esquerda e que, em muitos aspectos, continua a sê-lo, ainda
que os anos de governo o tenham empurrado para o pragmatismo. Dirceu e
Genoino movem campanhas públicas contra o STF, como todo mundo sabe. O
que quer dizer o trecho “José Dirceu é um quadro, e eu respeito pessoas que têm qualidades de quadro?”
É próprio de um quadro se reunir com autoridades do governo em quartos
de hotel? É próprio de um quadro articular uma CPI para perseguir
jornalistas e o procurador-geral da República?
O PSDB está com o discurso afinado para 2014?
Não. Falta o que na esquerda costuma-se dizer “fazer a autocrítica”.
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